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Documentação de imagens de montanha: Tempos Modernos 
Abaixo apresento os maiores nomes e acontecimentos dos tempos modernos da Documentação de Montanha, período em que lentamente ocorre a profissionalização desta incrível arte documental
| Por Marcio Bortolusso   
 Desde 1995, após ter o maior insight de minha vida, que venho dedicando cada segundo, gota de suor e centavo em prol da documentação de Atividades ao Ar Livre, em especial do Montanhismo, lutando pela consolidação deste segmento. Apesar das dificuldades, acho que já podemos comprovar a existência de um mercado nacional.

Abaixo apresento os maiores nomes e acontecimentos dos tempos modernos da Documentação de Montanha, período em que lentamente ocorre a profissionalização desta incrível arte documental. Na primeira metade do século passado os filmes de Montanha possuíam um caráter poético, eram carregados de dramaticidade e simbolismos. O escalador era um romântico, por vezes um herói e com forte ideologia nacionalista.

Os primeiros filmes de Montanha são na verdade pérolas da -sétima arte-, pois foram alguns dos primeiros da história do cinema, lançados poucos anos após a invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumière, em 1895. Cervin, de 1901, é considerado o primeiro filme de montanhismo da história.

Nas primeiras décadas do séc. XX foram os italianos que dominaram o Cine de Montanha, com destaque para filmes sobre o afamado Matterhorn e para as produções de Mario Piacenza. Nos anos 20 e 30 a montanha se destacou como cenário para grandes produções cinematográficas, de intrigas amorosas nas alturas a filmes de -Bang-Bang-, como os dramáticos filmes alemães.

Sob influência italiana, o que temos de mais representativo neste período são os filmes das primeiras tentativas dos ingleses ao Topo do Mundo, em especial o da fatídica tentativa de Mallory e Irvine em 1924, realizado pelo cinematografista John Noel. Praticamente uma arte européia, as produções deram uma brusca freada durante as Grandes Guerras e, dos anos 40 aos 60, a escola francesa libertou o Cine de Montanha de sua fase expressionista, tornando-o mais realista e narrativo que a escola alemã.

E o mestre incontestável do Cine de Montanha, considerado o precursor deste segmento como Arte, foi o revolucionário Marcel Ichac. O francês foi admirado em seu país por tudo que fez, como cineasta, fotógrafo, esquiador, alpinista e explorador. Escreveu importantes livros e realizou dezenas de documentários de prestígio durante cerca de 35 anos de carreira, que lhe renderam premiações nos mais importantes festivais de cinema do mundo, incluindo Cannes e o Oscar da Academia holywoodiana. Participou das primeiras expedições francesas ao Himalaia, de explorações submarinas com o oceanógrafo Jacques Cousteau, de produções na Groelândia e seu filme Soundeurs d´abîmes é considerado o primeiro da espeleologia.

Ichac revolucionou ao utilizar câmeras portáteis, que possibilitaram acompanhar os alpinistas durante as escaladas, proporcionando mais ação nas tomadas, tornado as imagens mais verídicas, em uma época em que eram usadas pesadas câmeras. Com enorme conhecimento e amor pela arte documental e pelas montanhas, Ichac fez escola devido ao seu profissionalismo e à autenticidade obtida com seu trabalho.

Durante os anos 50 os gigantes do Himalaia e alguns cumes -impossíveis- da Patagônia foram escalados e a passos lentos ocorria a profissionalização do segmento. Hollywood ainda não tinha absorvido os ensinamentos franceses e desenvolvia-se seguindo o dramático olhar alemão.

Um bom exemplo é o filme Third Man on the Mountain, produzido pelos estúdios Disney em 1959. O sucesso do filme foi graças à perfeita atmosfera criada, foi filmado na genuína fotografia alpina e teve como Diretor de Fotografia da Unidade de Montanha, nada mais, nada menos, que Gaston Rébuffat, o notável escalador da equipe que realizou a dramática primeira ascensão ao Annapurna.

E Rébuffat tinha o mesmo talento para o Montanhismo quanto para documentá-lo, foi um grande conferencista, fotógrafo, cineasta e escritor: algumas de suas fotos se tornaram históricas, produziu documentários de prestígio e escreveu alguns dos maiores clássicos do Montanhismo, que descrevem muito mais que perigo, mas a fantástica energia da escalada. O seu filme Etoiles et Tempêtes (1957), é fantástico, trata de seu enorme feito, quando se tornou o primeiro a escalar todas as Grandes Faces Nortes dos Alpes, as escaladas mais temidas de seu tempo.

Ao final desta década surgem as produções de Lothar Brandler e Gerhard Bauer, dois dos maiores cineastas de Montanha de todos os tempos. Brandler produziu mais de 130 documentários e longas, que revolucionaram a arte das montanhas. Bauer lançou cerca de 60 grandes obras, que conquistaram não apenas o público, mas os júris dos mais importantes festivais de cinema do planeta. Bauer foi cameraman no épico No Coração da Montanha (1991, de Werner Herzog), um dos melhores filmwa produzidos, que relata a competição de dois alpinistas na escalada do Cerro Torre.

Com o passar dos anos os equipamentos de filmagem e de escalada tornaram-se consideravelmente mais leves, de menor volume e maior qualidade. A Documentação de Montanha tornou-se mais fácil por um lado, porém mais ousada. Falando em ousadia, quem não pode ficar de fora é o cineasta suíço Fulvio Mariani, que desde os anos 80 realizou uma quinzena de incríveis documentários pelo mundo.

Em 85 acompanhou o fenômeno Marco Pedrini na primeira escalada -em estilo solitário- do temido Cerro Torre. E Mariani era tão bom em filmar quanto em escalar, voltando outras duas vezes ao gelado cume do Torre apenas para realizar novas tomadas para o seu belíssimo filme Cumbre. No total, foram mais de 30 bivaques na montanha, com certeza trata-se de um dos maiores clássicos cinematográficos da Patagônia.

Mas o consagrado gênio da Documentação de Montanha Moderna é o cineasta autríaco Kurt Diemberger, -figuraço- pioneiro das explorações e dos documentários sobre o Himalaia, sendo o único alpinista vivo com duas subidas a cumes virgens de 8 mil metros - sem falar em vários outros -gigantes- escalados. Em 1986 ele teve que bivacar acima de 8 mil metros no Chogo Ri (K2) e acabou escapando da montanha como um dos dois únicos sobreviventes do trágico Verão Negro. Realizou mais de 20 expedições pelo planeta desde os anos 50 e ainda está na ativa.

Excepcional fotógrafo, infelizmente uma de suas fotos mais famosas é a clássica imagem das pegadas de seu companheiro Hermann Buhl rumo a cornija que o engoliu para sempre, no Karakoran em 57. E Hollywood não pôde ignorar o sucesso de algumas modestas produções independentes. De tempos em tempos a -fábrica de sonhos- nos lança alguns de seus enlatados.

Em 1975 Clint Eastwwod lançou Licença para Matar (The Eiger's Sanction), com cenas improváveis e exageradas, mas que valeram pelos grandes vôos. Risco Total (Cliffhanger, de 93) tem como o dublê de Stalone o mítico Güllich, que fez o possível para salvar a imagem do filme. -Cascata Impossível-, com o sex-symbol Tom Cruise, eu nem vou perder tempo de comentar, assim como a pérola Limite Vertical (Vertical Limit, de 2000), de Martim Campbell, provavelmente os filmes mais odiados pelos escaladores.

Morte no Everest (Into Thin Air: Death on Everest, de 1997), baseado no livro de John Krakauer No Ar Rarefeito, comete menos erros, mas perde pelo sensacionalismo. Talvez o que se salve desta nova leva do Cine de Montanha sejam os filmes K2 (1992), de Franc Roddam, um dos que mais passam ao grande público o dia-a-dia de um amante das montanhas; Everest (veja abaixo); e o incrível Tocando o Vazio (Touching the Void, de 2003), de Kevin Macdonald, que retrata com imagens espetaculares e grande maestria a homérica roubada passada pelo escalador Joe Simpson no Siula Grande.

No ar Rarefeito, de Krakauer, sobre a tragédia de 96 no -circo Everest-, trata-se de um ótimo livro, polêmico e revelador, que tornou-se best-seller em semanas. Mas é preciso ler também A Escalada (The Climb: Tragic Ambitions on Everest, 1997), de Anatoli Boukreev e G. W. DeWalt, outra versão da história, relatada pelo valente escalador russo Boukreev e com a sua -defesa- para algumas acusações que recebeu após ter realizado um dos resgates mais impressionantes da história.

Outro guerreiro da sétima arte das montanhas é David Breashers, cineasta que também já realizou trabalhos em algumas das mais importantes cadeias de montanha do mundo, participou de produções milionárias como Risco Total e co-produziu documentários premiados. Em alguns círculos de Hollywwod Breashers é respeitado como -o cineasta guerrilheiro que conseguiu entrar com uma câmera em território tibetano e filmar por baixo do pano o documentário Red Flag Over Tibet-, um testemunho perturbador das conseqüências para aquele pais budista da ocupação chinesa (estas cenas que deram autenticidade ao épico milionário Sete Anos no Tibete).

Em 83 Breashers transmitiu as primeiras imagens ao vivo do Topo do Mundo e, em 95, tornou-se o primeiro norte-americano a chegar duas vezes no ponto mais alto do planeta. Como cineasta recebeu quatro prêmios Emmy e em 96 dirigiu o aclamado filme Everest, com cenas do topo do mundo no gigantesco formato IMAX, que precisa de uma tela de 18 metros de altura para ser exibido.

Exagero? Imagina o trampo para filmar na Zona da Morte: só a câmera, o chassi de filme, a bateria e a lente pesavam 19 quilos! O tripé mais 17 quilos e as suas manivelas outros 21, sem falar nas dezenas de quilos de pedras que os sherpas juntavam para firmar o tripé. Para o cume, ao invés do tripé uma coluna de 3,5 quilos. Cansou? Então saiba que cada rolo de filme pesava 2 quilos e durava apenas 90 segundos!

Lionel Terray, após realizar as escaladas mais impressionantes de seu tempo, como as das faces mais difíceis dos Alpes e as primeiras ascensões do Makalu, do Fitz Roy, do Huantsan, do Chacraraju e de ter participado da equipe principal que escalou o Annapurna pela primeira vez, publicou o maior best-seller do Montanhismo de todos os tempo, Os Conquistadores do Inútil (1961).

Na Fotografia de Montanha, os maiores nomes são os veteranos Tom Frost, Greg Lowe, Greg Epperson (gregepperson.com), Chris Noble (noblefoto.com), Keith Ladzinski (ladzinski.com), Corey Rich (coreyrich.com), Simon Carter (onsight.com.au), Jörg Zeidelhack (vision-z.com), Bobby Model (m-11.com), Ace Kvale (acekvale.com), Greg Child e Thomas Ulrich (veja também seus vídeos: thomasulrich.com).

Porém poucos se destacaram tanto quanto o fotógrafo e escalador Galen Rowell, uma das maiores referências para qualquer amante das imagens verticais. Rowell faleceu em 2002 em um acidente aéreo, após mais de 50 anos de Montanhismo e cerca de 40 expedições pelos principais maciços da Terra (incluindo os dois pólos!). Trabalhou como fotógrafo por 3 décadas e publicou 18 livros, além de trabalhar para títulos como National Geographic.

Mesmo na Europa e EUA este segmento é incerto e mal valorizado, com poucos documentaristas vivendo exclusivamente do Montanhismo. Ainda assim o mercado internacional permite com grande vantagem em relação ao Brasil que se viva da Documentação de Montanha, graças à realidade sócio-econômica e cultural de alguns países, que vêem o Montanhismo como valor de cidadania.

Felizmente para nós, desde 2001 é realizando no Brasil a Mostra Internacional de Filmes de Montanha (9d Produções) com raízes no consagrado Banff Mountain Film Festival. Trata-se de uma verdadeira festa do Montanhismo tupiniquim, com a apresentação das melhores produções nacionais e internacionais e ainda com atividades paralelas como palestras, exposições e lançamento de Guias e livros.

Como Documentarista de Montanha, creio que muito do que temos de relevante sobre o passado documental nacional se deve a uma única pessoa: Renato José Sobral Pinto, hoje com -78 anos e meio- de idade e muito carisma. Ao contrário dos demais de sua época, Sobral não foi apenas um escalador que tirava fotos da turma, mas era um fotógrafo que gostava de escalar. E apesar de não viver da Fotografia de Montanha (algo improvável quando começou), representa um exemplo raro na Documentação de Montanha mundial, completa este ano Bodas de Ouro com suas Imagens de Montanha, em plena atividade com suas belíssimas exposições.

Suas lentes registraram com talento alguns dos grandes nomes da Escalada brasileira e passagens históricas de nosso passado, uma importante parte de nossa história que hoje se encontra resguardada em seu acervo de milhares de negativos.

Em 1986 surgiu a revista Montanha, a primeira sobre Montanhismo no Brasil, que durou 3 exemplares. Em 93 surgiu a também extinta revista Solo, projeto do paranaense Chicão, do Refúgio 5.13. Entre tentativas que não vingaram, surgiram a mineira Universo Vertical e a revista Headwall, que obtiveram os melhores resultados editoriais do país, antes de fecharem as portas devido às dificuldades do mercado.

Não viramos órfãos, pois ainda contamos com o informativo Mountain Voices, editado desde 90 pelo experiente Eliseu Frechou, que junto com o periódico Fator 2 (do Flávio Daflon) apresenta-se como a mais importante publicação de Montanhismo do Brasil. Não poderia deixar de falar da Internet como meio de comunicação, citando como principais referências o site Via Crux (do André Neves), as Listas de Discussão dos Clubes e Federações e o Hang On.

O -boom- da produção de vídeos ocorreu nos anos 90, com o advento das filmadoras. As produções mais significativas começaram com os filmes do Waldemar Niclevicz, passando pelos vídeos da parceria Mountain Voices / V Filmes e outras produções independentes, até chegarmos no primeiro longa nacional, o Extremo Sul, de Monica Schmiedt e Sylvestre Campe, de 2005.

E que tal prestigiar a literatura nacional? Dezenas de títulos de qualidade no link montanha.bio.br/livrosdemontanha.htm. Apesar de nem todos trabalharem exclusivamente com Documentação de Montanha, vivendo de outras áreas ou com outros segmentos de vídeo e fotografia, já podemos enumerar alguns importantes nomes atuando neste mágico segmento, tais como Priscila Botto, Christian Steinhauser, André Kühner, Maurício Clauzet, os fotógrafos cariocas Marco Terranova e Marcela Chaves, o próprio Eliseu Frechou e os documentaristas da PHOTOVERDE® Produções.

Lentamente estruturamos o mercado latino-americano. Temos publicações, espaço nas grandes mídias e títulos segmentados, grandes feiras, campeonatos, festivais e Encontros de escalada por todo o país. Inclusive algumas grandes produções publicitárias e cinematográficas já contam com a participação de documentaristas especializados na produção.

Relembrando, este artigo é uma pincelada do material que venho apresentando em eventos de Montanhismo, fruto de longa pesquisa para um livro futuro. Portanto, qualquer comentário ou nova info será de grande valia para o meu trabalho e obviamente que serei grato pela força.

Caso você queira saber mais sobre o universo fascinante da Documentação de Montanha ou sobre expedições de caráter exploratório, Natureza e Cultura Regional, cadastre-se em nossa página e seja informado de seu lançamento oficial, previsto para maio (photoverde.com.br).

Até a próxima!
 
Colunista:  
Márcio Bortolusso é Documentarista de Montanha da PHOTOVERDE Produções® (photoverde.com.br) e montanhista patrocinado pelas marcas SOLO®, GORETEX® ,WiNDSTOPPER® e SNAKE®. Membro do Centro Excursionista Gravatá, adotou o montanhismo como estilo de vida em 1990 e já produziu documentários da Patagônia aos Alpes. Dentre alguns trabalhos, a AXN (Sony Entertainment Pictures) produziu dois documentários de 14 episódios com suas imagens, veiculados em 45 países e com menção especial às suas habilidades cinematográficas.
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