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Ciclistas do Cliclopoesis chegam à região do Atacama 
Mais uma vez fomos surpreendidos durante nosso pedalar.
| Por Ciclopoesis   

Nos despedimos de La Serena escoltados pelo ciclista Manuel, que nos instruiu sobre o trajeto que iríamos percorrer. Manuel nos recomendou Caleta Los Hornos, uma vila de pescadores ao pé da serra Buenos Aires, distante 43 km de La Serena. Mais uma vez fomos surpreendidos durante nosso pedalar. Pensávamos que a hospitalidade do povo Chileno havia ficado para trás, porém, um jovem pescador chamado Marcelo nos recebeu em sua casa e nos tratou como velhos amigos.

Depois de pedalar pela manhã por duas grandes serras entramos oficialmente na região do Atacama. Incahuasi é o -pueblo- portal do deserto, um lugar mágico e sinistro, onde pudemos experimentar como é viver no deserto. As crianças da cidade logo perceberam os -forasteiros- e com seus olhares curiosos e desconfiados se aproximaram para começar o interrogatório. Passamos algumas horas brincando com as crianças, organizamos uma corrida de bicicleta e jogamos futebol enquanto eles mesmos documentavam as brincadeiras com nossas câmeras. Saímos de Incahuasi revitalizados pela energia das crianças.

De Incahuasi a Cachiyuyo foram mais 50 km de pedal. Entramos no pequeno -pueblo- com um sentimento de que alguém nos esperava. Fomos encontrados por um grupo de amigos que saboreavam suas cervejas na praça da cidade. Depois da descontraída conversa ficamos sabendo de um teatro que as crianças da cidade haviam preparado para aquela noite e seguimos para conferir. No final da festa reencontramos nosso amigo Luis Vega que nos ofereceu sua casa e uma boa dose de prosa.

Bom... depois de tantos momentos intensos o grupo sentiu a necessidade de um momento de reflexão coletiva para avaliar a viagem e problematizar algumas dificuldades de relacionamento que surgiram. E foi no coreto da praça do povoado de Domenkyo que tivemos nosso primeiro ritual da fala. Cada um dos ciclopoetas teve a chance de se expressar e colocar para o grupo suas percepções sobre a viagem. Dali seguimos viagem, pedalando e refletindo em silêncio pelo resto do dia...

Uma parada estratégica em Vallenar para reabastecer e organizar nossos registros. Devido ao calor optamos por uma pedalada noturna para cruzar um trecho de deserto de 150 km . Nesse trecho notamos que algo diferente pairava sobre nossas cabeças...se tratava do cometa McNaught com sua nebulosa cauda entre as estrelas. O céu nessa região chilena é um dos mais limpos do planeta e por esse motivo os observatórios mais importantes da América se localizam aqui. O cansaço e o sono tomou conta do grupo e resolvemos acampar no único ponto de apoio entre Vallenar e Copiapo.

Após uma noite mal dormida devido ao vento frio do deserto conhecemos um grande mestre... Com 48 anos e mais de 150 mil kilometros pedalados ao redor do mundo, Vita, um tcheco bastante simpático e humilde compartilhou conosco suas experiências durante o café da manhã. Sua viagem do Alaska até Ushuaia levava seis meses e ele já estava ansioso para regressar e rever sua filha recém-nascida. Sua alegria, simplicidade e vitalidade foram os ensinamentos que levamos desse encontro.

Com sua riqueza mineral, vales férteis e proximidade do mar, Copiapó é uma das cidades mais importantes do norte do Chile. Abrigados na Segunda Compania de Bombeiros nossa equipe aproveitou da infra-estrutura da cidade para conectar-se à internet, atualizar o site, comprar mantimentos e alguns equipamentos. Dois dias após nosso ritual da fala em Domenkyo a equipe precisou se reunir mais uma vez. Fazer uma viagem como essa em quatro pessoas é um grande desafio. Cada um tem seu ritmo, seus interesses, objetivos...o convívio diário torna essas diferenças ainda mais intensas. De uma maneira madura, Leonardo optou por continuar a viagem sozinho, num ritmo mais forte em direção ao Lago Titicaca. Nós do Projeto Ciclopoiesis desejamos uma boa viagem para Léo e esperamos que ele conclua sua peregrinação em paz.

Nova equipe, novo ritmo...saímos de Copiapó antes do anoitecer, encontramos um lugar perfeito para acampar e fazer uma fogueira. No dia seguinte pegamos uma praia em Bahia Inglesa com suas águas azul-turquesa repletas de águas-vivas e areia branca. Na ciclovia para Caldera mais um ciclo-encontro. Leonardo (25) é catarinense e um experiente viajante apesar da pouca idade. Conversamos bastante num encontro marcado pelo acaso e aprendemos algumas lições com esse cicloviajante: -Quando se viaja de bicicleta é preciso ter paciência e disponibilidade para conhecer os lugares.-

Agora estamos em Chañaral, acreditamos que chegaremos em Antofogasta daqui 4 dias, e depois seguirmos para San Pedro de Atacama. A conversa com Maturana, Ximena, Patrício e Inácio, no Instituto Matriztico, sempre está presente durante nosso pedalar, as interações que estamos vivendo estão -cambiando- nós mesmos e o -caminho- que percorremos, a reflexão -Bio-Budista- de Patrício está sendo vivida durante todos os instantes da viagem; -A pessoa mais importante para mim é o outro que está convivendo comigo naquele presente... assim podemos viver nosso presente e nos conectar com a Matriz Biológica da Existência Humana.-

Para finalizar, gostaríamos de dividir uma reflexão que se amadurece a cada dia em nossas vidas de cicloviajantes. Todos nós somos a variação de um mesmo tema, a vida surgiu a aproximadamente 4 bilhões de anos em nosso planeta, foi nesse instante espontâneo o inicio do florescer da vida. Nós, seres vivos estamos ameaçados por uma forma de viver que se conserva e coloca em risco toda existência de nosso planeta, acreditamos que a celebração e defesa da vida não deve ser imposta ou conquistada com armas, deve ser desejada com honestidade e humildade. Nessa direção estamos Pedalando e Transformando, nós mesmos e os lugares por onde passamos.

Os ciclistas Rodrigo Ferrari, Vitor Carneiro, Ricardo Zinner e Karina Oliana embarcaram no último dia 4 de janeiro para uma jornada de 18 mil quilômetros de bicicleta pela América do Sul. A viagem tem um propósito e um nome, Projeto Ciclopoiesis, que pretende difundir a bike como meio de transporte e como simbolismo de transformação das relações sócio-ambientais. O ativo.com vai acompanhar o projeto.

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